[LITERATURA] O Corcunda de Notre Dame


Terminei de ler O Concurda de Notre Dame de Victor Hugo, um de meus autores favoritos. A história todos conhecem, mesmo que de forma superficial: no final do século XV, um ser desfigurado é criado por um padre, que o deixa viver nos campanários da catedral de Notre Dame, em Paris. Lá ele se torna sineiro e fica surdo. Tanto padre quanto filho adotivo se apaixonam por Esmeralda, uma cigana que costumava dançar na praça em frente à igreja, com sua cabra de estimação, Djali. Ela, por sua vez, cai de amores pelo vistoso capitão Phoebus. Isso gera um efeito catastrófico na vida dessas pessoas, pois o padre deseja a cigana, que por sua vez deseja o capitão, enquanto o corcunda, que ama tanto a moça quanto seu “pai”, tem que ora defender um, ora poupar o outro. Até porque, quando não consegue o que deseja, Frollo (o padre), manda Esmeralda para a forca, sob acusação de bruxaria, muito comum na época.

Frollo, quando pega Quasímodo para criar. O menino, por sua deformidade, tinha sido abandonado aos pé da igreja.

Victor Hugo propõe que esta história é uma representação da fatalidade, do destino implacável que nos acomete, nossa sina, da qual não podemos escapar, tal como uma mosca que cai, sem querer, nas teias de uma aranha. Porém, analisando os personagens sob um ponto de vista psicológico, ficou evidente para mim que todos eles poderiam ter se libertado dos desfechos terríveis que tiveram se, ao invés de manterem suas ilusões, optassem pelo bom senso e lucidez.

Neste sentido, uma conclusão a que cheguei foi: quem mantém pensamentos obsessivos, quem quer forçar os outros a fazerem aquilo que não desejam, quem insiste em afirmar que algo é verdade, mesmo com todas as provas em contrário, quem arrisca a própria vida e sanidade por algo que não lhe pertence, está construindo um futuro de dor e, quando este destino chega, não pode dizer que foi vítima. Houve uma escolha, mesmo que se negue.

(SPOILERS ABAIXO)

Phoebus e Esmeralda

Por exemplo, Esmeralda por muitas vezes pôde se salvar, mas não o fez por ficar se enganando de que o sentimento de Phoebus era verdadeiro, quando não era. Mesmo vendo-o com outra mulher, preferia acreditar que era irmã dele. Mesmo a ponto de morrer e percebendo nitidamente que ele nada faria a seu favor, ainda sonhava com um futuro com ele. Quantas mulheres hoje ainda não fazem isso? De ver a realidade e depois pintá-la com cores convenientes aos seus desejos?

Enquanto isso, Frollo era padre e tinha o voto da castidade. Em vez de aceitar que desejava a cigana, pura e simplesmente, preferiu acreditar em bruxaria. Depois, quando a cigana foi salva por Quasímodo, tentou saciar seu desejo à força, posto que ela o desprezava. Outras vezes raptou a moça e a fez escolher entre a morte e ele, o que ela sempre optava pela primeira alternativa. Muita gente confunde paixão, apego, obsessão com amor. Porém, amor é algo tão leve e bom que, quando você ama, inevitavelmente deseja que o outro seja feliz, mesmo que isso signifique ficar o mais longe de você. Assim, querer que alguém nos ame e nos deseje à força só prova o quanto, no final das contas, não amamos esta pessoa, já que a estamos tratando como mero objeto de prazer.

Outra conclusão que pude tirar da história foi que os quatro principais personagens masculinos representaram quatro formas distintas de amor: Pierre, o poeta que se torna amigo de Esmeralda e que era discípulo do padre, tem pela cigana um sentimento fraternal. Phoebus, o capitão, tem apenas luxúria, mas sem apegos. Frollo, o padre, tem paixão obsessiva e Quasímodo, o corcunda, amor profundo. E como se distinguem estes sentimentos? Pierre trata Esmeralda como uma igual. O capitão a deseja, mas quando as coisas dão errado, se afasta sem remorsos. O padre é tão obsessivo que, enquanto não a possuir, não pode relaxar, o que é diferente do amor puro e simples do corcunda, que a salva, sem esperar nada em troca, que cuida e que a liberta de ter que conviver com ele, por ser feio demais.

Cena de de filme de 1923

Portanto, o que fica evidente é que não existe fatalidade e sim a vontade de continuar sofrendo. Todos nós podemos ter um futuro resplandecente se assim o quisermos e a coisa mais básica a se fazer é começar a amar a si mesmo. Se Esmeralda se amasse de verdade, não teria caído na lábia do capitão, se colocando em situação perigosa que no fim a levou à forca. Se Frollo se amasse, não teria ficado cego por seus desejos carnais, pois os teria expressado com mais naturalidade e sem culpa. Se o Corcunda se amasse, teria se tornado independente de Frollo, mesmo que continuasse a ser grato por ele, não ficando surdo, o que o prejudicou bastante ao longo dessa história.

Notre Dame em 2012

E então, o que você vai escolher? a fatalidade ou seu livre-arbítrio?

Dados da Edição Lida:

Victor Hugo

Ano: 2013 / Páginas: 496

Editora: Zahar

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